quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Pobre e Mal-Agradecido

de André Mateus e Bruno Canceiro

INT, RESTAURANTE, DIA

JOSÉ, um homem de negócios, de fato e gravata, está sentado numa mesa dum restaurante a almoçar, quando repara no amigo FELIZBERTO, vestido com uns jeans rotos, camisola de manga cava suada e com manchas de tinta branca na cara e na roupa à entrada. José acena para ele se aproximar e Felizberto senta-se à mesa.

JOSÉ
Tão pá, por aqui? Já almoçaste?

FELIZBERTO
Sim sim, não não, mas deixa estar...

JOSÉ
Anda lá, senta-te aí.

FELIZBERTO
Não, a sério. É que eu...não posso gastar muito este mês!

JOSÉ
Deixa tar que eu pago, pá. Não sejas parvo.

FELIZBERTO
Ah não, ora essa. Não pagas nada.

JOSÉ
Não, mas eu insisto.

FELIZBERTO
Não, nem pensar.

JOSÉ
Vá, é um favor que me fazes!

FELIZBERTO
Não digas disparates.

JOSÉ
Mau, mau, não nos vamos chatear, pede lá qualquer coisa!

FELIZBERTO
Pronto tá bem!

José acena para chamar o empregado, que vem à mesa.

JOSÉ
Força!

Felizberto consulta a ementa e ergue o olhar par o empregado.

FELIZBERTO
Ora, para começar, umas ostrazinhas e o vosso melhor caviar beluga, acompanhados por um Martini Rossato...abanado, não mexido!

JOSÉ faz um sorriso amarelo e olha para o amigo com um olhar suplicante.

EMPREGADO
Com certeza, senhor. E o prato?

FELIZBERTO
Lagosta suada e risotto de pato e cogumelos...

EMPREGADO
E para beber?

FELIZBERTO
Um Dom Perignon de 72 calhava mesmo bem agora. E um creme brulée para sobremesa!

JOSÉ
(sarcástico)
Vê lá se não queres mais nada...

FELIZBERTO
Ah sim, claro. Traga também um canapé recheado aqui para o José!

JOSÉ
Mas estás a gozar comigo ou quê? Tá aqui um gajo cheio de boa vontade e tu fazes-me isto?
José levanta-se e dirigi-se para a saída.

FELIZBERTO
(para o empregado)
Olhe, afinal risque isso e traga-me só um pão com manteiga. Mas o pão que seja de hoje e a manteiga da Becel, que eu nã quero cá dessas tretas da Planta!


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