INT. RESTAURANTE - NOITE
No salão
principal dum restaurante com aspecto moderno
repleto de PESSOAS há duas mesas que se destacam.
Numa está MIGUEL(25) e RUI(25), dois jovens rapazes
vestidos com roupas modernas, cabelos
penteados meticulosamente com muito
gel. A linguagem corporal de Rui é efeminada. Já não têm pratos, estão ambos a beber
digestivos.
Noutra mesa
está ALBERTO(25) e MARTA(25). Ele está notoriamente aborrecido e ela mexe-se
como que impaciente. Esperam o ser servidos.
As duas
mesas são separadas, mas próximas o suficiente para que
as conversas se consigam
ouvir duma mesa para a outra.
MIGUEL
Gostaste?
RUI
Sim. As tuas escolhas
gastronómicas estão cada vez melhores.
Miguel sorri.
MIGUEL
Bebe mais, tenho novidades
para ti.
Miguel dá um trago mais longo na sua bebida.
MIGUEL (CONT)
Desde que chegámos que tenho estado
a ganhar coragem para te dizer o
que tenho para dizer.
Rui sobressalta-se em expectativa.
RUI
O que é?
Miguel agarra
nas mãos de Rui, olha nos olhos dele com amor.
Na mesa
ao lado Alberto observa a situação e está cada vez mais incomodado.
Miguel engole
em seco, a preparar-se para falar.
MIGUEL
Sabes que eu te adoro e que és tudo
para mim. A minha questão é? Queres
oficializar a nossa união.
Rui exalta-se em felicidade.
2.
RUI
Estás a propor-me em casamento?
Claro que sim!
Nisto Alberto
roda sobre a cadeira e dirige-se em voz assertiva para os dois homens
do lado.
ALBERTO
Não! (pausa) Não aguento
mais!
MIGUEL
Desculpe?
ALBERTO
Agora é que não desculpo! Não estou para aturar mais isto. Vocês têm alguma noção...?
MIGUEL (ofendido)
O quê?
Você tem alguma
coisa contra a homossexualidade?
O restaurante pára em silêncio,
dirigindo as suas atenções para aquelas duas mesas.
ALBERTO
Eu não. Mas já não aguento
mais.
Vocês estão a criar precedentes que
me afectam a mim directamente.
MIGUEL
Desculpe mas você está a ser mal
educado. Eu nem o conheço de lado
nenhum.
Marta que até ali tem sido uma simples
espectadora incrédula, tenta acalmar Alberto.
MARTA
O que é que te deu? Pára com isso!
Alberto agora toma uma atitude mais calma e dirige-se ao outros
dois homens.
ALBERTO
Eu passo a explicar: Eu não tenho
nada contra a homossexualidade, mas
vocês criam objectivos que eu não
estou capacitado a atingir.
Primeiro, os perfumes. Eu nunca tinha usado perfume na vida, até a
(CONTINUA)
3.
ALBERTO (CONTINUA)
minha namorada me vir com história
que um amigo gay dela tinha um
perfume qualquer
que sabia a
morangos... logo passei a usar... e
sou alérgico a morangos.
Marta sorri
e acena afirmativamente.
ALBERTO (CONT)
Segundo. Gel no cabelo?
O tempo que
agora demoro só para me pentear!
Só
porque o amigo gay dela usa uns
penteados muito
modernos.
Rui e Miguel agora adoptam uma pose mais relaxada mas curiosa.
ALBERTO
(CONT) Depilação no peito?
A sério? Eu tenho
mais pelo que um São Bernardo... Aquilo custa a arrancar... E tudo por causa do amigo gay.
MARTA
Mas é mais suave ao toque.
Alberto olha para ela com cara de chateado.
ALBERTO
Agora venho jantar com ela a um
sítio todo fino só porque ela faz
anos, e vocês começam
a falar em
casamento?... Eu queria mesmo era a
irmã!
Marta levanta-se subitamente, dá um estalo violento
na cara de Alberto e sai.
Alberto resigna-se no seu lugar.
ALBERTO
Não vale a pena desperdiçar um
perfume caro e o peito depilado.
A
seguir, vocês vão beber um copo a
algum lado?