quarta-feira, 10 de abril de 2013

Proposta de Casamento


INT. RESTAURANTE - NOITE

No salão principal dum restaurante com aspecto moderno repleto de PESSOAS duas mesas que se destacam.

Numa está MIGUEL(25) e RUI(25), dois jovens rapazes vestidos com roupas modernas, cabelos penteados meticulosamente com muito gel. A linguagem corporal de Rui é efeminada. não têm pratos, estão ambos a beber digestivos.

Noutra mesa está ALBERTO(25) e MARTA(25). Ele está notoriamente aborrecido e ela mexe-se como que impaciente. Esperam o ser servidos.

As duas mesas são separadas, mas próximas o suficiente para que as conversas se consigam ouvir duma mesa para a outra.

MIGUEL

Gostaste?


                          RUI

Sim. As tuas escolhas gastronómicas estão cada vez melhores.

Miguel sorri.

MIGUEL
Bebe mais, tenho novidades para ti.

Miguel um trago mais longo na sua bebida.

MIGUEL (CONT)
Desde que chegámos que tenho estado
a ganhar coragem para te dizer o
que tenho para dizer.

Rui sobressalta-se em expectativa.


                          RUI
                       O que é?


Miguel agarra nas mãos de Rui, olha nos olhos dele com amor.

Na mesa ao lado Alberto observa a situação e está cada vez mais incomodado.

Miguel engole em seco, a preparar-se para falar.

MIGUEL
Sabes que eu te adoro e que és tudo
para mim. A minha questão é? Queres
oficializar a nossa união.

Rui exalta-se em felicidade.

2.



RUI
Estás a propor-me em casamento?
Claro que sim!

Nisto Alberto roda sobre a cadeira e dirige-se em voz assertiva para os dois homens do lado.

ALBERTO
Não! (pausa) Não aguento mais!

MIGUEL

Desculpe?


                         ALBERTO

Agora é que não desculpo! Não estou para aturar mais isto. Vocês têm alguma noção...?

MIGUEL (ofendido)
O quê? Você tem alguma coisa contra a homossexualidade?

O restaurante pára em silêncio, dirigindo as suas atenções para aquelas duas mesas.

ALBERTO
Eu não. Mas não aguento mais.
Vocês estão a criar precedentes que
me afectam a mim directamente.

MIGUEL
Desculpe mas você está a ser mal
educado. Eu nem o conheço de lado
nenhum.

Marta que até ali tem sido uma simples espectadora incrédula, tenta acalmar Alberto.

MARTA
O que é que te deu? Pára com isso!

Alberto agora toma uma atitude mais calma e dirige-se ao outros dois homens.

ALBERTO
Eu passo a explicar: Eu não tenho
nada contra a homossexualidade, mas
vocês criam objectivos que eu não
estou capacitado a atingir.

Primeiro, os perfumes. Eu nunca tinha usado perfume na vida, até a
(CONTINUA)

3.



ALBERTO (CONTINUA)
minha namorada me vir com história
que um amigo gay dela tinha um
perfume qualquer que sabia a
morangos... logo passei a usar... e
sou alérgico a morangos.

Marta sorri e acena afirmativamente.

ALBERTO (CONT)
Segundo. Gel no cabelo? O tempo que
agora demoro para me pentear!
porque o amigo gay dela usa uns
penteados muito modernos.

Rui e Miguel agora adoptam uma pose mais relaxada mas curiosa.

ALBERTO (CONT) Depilação no peito? A sério? Eu tenho mais pelo que um São Bernardo... Aquilo custa a arrancar... E tudo por causa do amigo gay.

MARTA
Mas é mais suave ao toque.

Alberto olha para ela com cara de chateado.

ALBERTO
Agora venho jantar com ela a um
sítio todo fino porque ela faz
anos, e vocês começam a falar em
casamento?... Eu queria mesmo era a
irmã!

Marta levanta-se subitamente, um estalo violento na cara de Alberto e sai.

Alberto resigna-se no seu lugar.

ALBERTO
Não vale a pena desperdiçar um
perfume caro e o peito depilado. A
seguir, vocês vão beber um copo a
algum lado?

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Parabéns, Fernando!

Sketch radiofónico, de Fábio Carvalho.

1. INT. ESTÚDIO

FERNANDO
Boa tarde, caros ouvintes. Bem-vindos a mais uma edição do “Parabéns a Você!”, o magazine noticioso sobre o que não aconteceu.

GENÉRICO: Um coro profissional a cantar os Parabéns corretamente mas que, a meio, descamba na triste cacofonia habitual que se pode observar nas festas de aniversário caseiras.

FERNANDO
Hoje vamos falar dos últimos não-acontecimentos da atualidade, não é assim, Artur?

ARTUR
É sim, Fernando. Esta semana foi especialmente fértil em não-acontecimentos. É caso para dizer nada aconteceu.

JINGLE: Coro cantando “Não se passa nada!”.

FERNANDO
Exceto que eu fiz anos.

ARTUR
Parabéns!

JINGLE: Pessoas a dizer parabéns em várias línguas.

FERNANDO
Obrigado.

ARTUR
E então o que fizeste no dia do teu aniversário?

FERNANDO
Ora convidei os amigos para jantar. Uma festinha privada. Já te tinha dito que sou um espetáculo na cozinha?

ARTUR
Não, nem sequer me convidaste para ir à tua festa.

Som de coruja a piar.

FERNANDO
Tens a certeza?

ARTUR
Tenho.

FERNANDO
Isso é muito estranho.

ARTUR
Não é nada estranho. Estou neste momento a ver o evento no facebook e confirmo que convidaste oitocentas e cinquenta e nove pessoas. Ou seja, todos os teus amigos exceto eu. Até convidaste a minha ex-namorada.

FERNANDO
Ex?

ARTUR
Sim, acabou comigo ontem. Disse que tinha conhecido alguém melhor.

FERNANDO
A sério? E estás bem?

ARTUR
Estou, isto passa. A Ágata sempre foi à tua festa?

FERNANDO
Não.

CUT TO:

2. INT. FESTA DO FERNANDO – NOITE

Ambiente festivo. Música alegre. Vozes animadas.

AMIGO DE FERNANDO
Epá, aquela não é a namorada do Artur?

FERNANDO
É.

AMIGO DE FERNANDO
Ca granda prateleira.

ÁGATA
Ouuuhhh, ouuuhhh, ouuuhhhh!

AMIGO DE FERNANDO
Não achas que ela devia sair da varanda e voltar a vestir-se?

FERNANDO
Nah, deixa-a divertir-se.

CUT TO:

4. INT. ESTÚDIO

FERNANDO
Pois. Não apareceu nem me disse nada. Pensei que estivesse contigo.

CUT TO:

3. INT. FESTA DO FERNANDO – NOITE

Novamente ambiente de festa.

ÁGATA
Fernando, eu sempre gostei mais de ti do que do Artur.

FERNANDO
Então porque é que andas com ele?

ÁGATA
Queria testar-te, palerminha. Mas sabes, é sempre em ti que eu penso quando faço amor.

CUT TO:

4. INT. ESTÚDIO

ARTUR
Sabias que ela às vezes chamava por ti enquanto fazíamos amor?

JINGLE: O coro do genérico inicial diz, cantando gloriosamente: Nem tudo são rosas!

O Artur começa a chorar.

FERNANDO
Artur...

ARTUR
(chorando)
Era a mulher da minha vida... A única mulher que alguma vez tive e tu... Foste tu...

FERNANDO
Olha, acalma-te. Vamos continuar o programa como estava combinado. Está bem?

ARTUR
Traíste-me!

FERNANDO
Artur. A culpa não foi minha.

ARTUR
Claro, a culpa nunca é de ninguém! A Ágata também diz que ela não tem culpa! Queres ver que agora a culpa é minha!?

FERNANDO
Olha os ouvintes.

ARTUR
Que se li... (palavrão censurado) os ouvintes!

Artur levanta-se, tira os auscultadores e afasta-se do microfone.

ARTUR
(gritando)
Porquê? Porquê?

FERNANDO
Caros ouvintes--

ARTUR
Oh mãe, porquê!?

FERNANDO
--Pedimos desculpa por este pequeno incidente. Voltaremos, certamente, dentro de momentos com o “Parabéns a Você!” e os não-acontecimentos da semana.

Som de vidros a partirem-se e o grito de Artur que se atira da janela.

FERNANDO
Fod... (palavrão censurado)! Bem, caros ouvintes, parece que o meu colega suicidou-se. É mesmo caso para dizer que acontece sempre alguma coisa mesmo quando nada acontece.

JINGLE: Coro cantando “Não se passa nada!”.

FERNANDO
Não desligue o rádio porque a seguir vamos ter o resumo dos não-acontecimentos da semana e a nossa habitual entrevista. Esta semana o convidado será o Rei Mago Belchior que irá comentar connosco a saída inesperada do FMI de Portugal, depois de Arménio Carlos ter dito que Abebe Selassie, representante da delegação do Fundo Monetário Internacional, era um Rei Mago Escurinho. Comparação que anda bem longe da verdade.

Excerto da entrevista:

BELCHIOR
De facto, ele não é parecido comigo.

FERNANDO
Continue connosco.

GENÉRICO.

END OF SKETCH